sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

Desejamos a todos os leitores, nossos sinceros votos de Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!


Esperamos também que 2009 seja mais um ano de aprendizagem e desafios para todos nós, e que os frutos da precaução sejam fartos aos que se preocuparam em antever ao invés de remediar.



Continuaremos postando semanalmente a partir do início de Janeiro de 2009.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Fatos e Fardos.

Autor: Luis Cardiga (12/12/08)


Ela sabe que suas chances em 2010 são mínimas enquanto as commodities estiverem em baixa. Ela sabe também que a fase aguda das contrações de crédito dura em média 2-3 anos e que em 2014, ao final do mandato do próximo presidente, tem copa do mundo no Brasil e que por esta razão o próximo presidente, muito provavelmente, também será reeleito para um segundo mandato.

O Baltic Dry Index basicamente mede o grau de rentabilidade do setor de transporte de granéis diversos como, por exemplo, o minério de ferro. Ou minha interpretação está errada, ou podemos inferir um eminente colapso do comércio internacional desde já.

A violência com a qual os mercados vêem reagindo nos últimos meses já supera as piores catástrofes econômicas do passado. Este movimento pode ser ainda uma prévia para os próximos acontecimentos que “justificariam” para a mente humana tal movimento. O Paquistão vem em mente: reservas internacionais acabando, desespero, fanatismo religioso, falta de perspectiva futura, lutas internas, desgoverno, dezenas de ogivas nucleares. Parece que os ingredientes estão todos ai, só precisa riscar o fósforo e mergulhar o mundo numa depressão.





quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Onde Investir 2009.

Autor: Luis Cardiga (04/12/08)

Primeiramente, gostaria de mencionar que as idéias propostas neste texto refletem minha conclusão pessoal sobre investimentos, finanças e estratégia, e, portanto, devem ser criteriosamente avaliadas antes de qualquer tomada de decisão que envolva a alocação de capital de terceiros.

Poder de compra é o que interessa.
Investir pode significar muitas coisas diferentes para muitas pessoas. No entanto, para simplificar o entendimento do leitor, gostaria de resumir o que investir significa no contexto da nossa análise: “Investir significa alocar capital tendo como objetivo final o aumento do poder de compra deste capital ao final de um determinado período”.
Assim sendo, analisaremos algumas opções de investimento populares para o investidor brasileiro sobre a ótica do aumento do poder de compra ao final do período.

OURO (Perspectiva Positiva ao longo de 2009)
Aos que acompanharam minhas missivas anteriores (e outros e-mails por vários meses), já deve estar claro que estou positivo quanto ao desempenho do Ouro para os próximos 24 meses. O ouro é uma moeda como qualquer outra do ponto de vista de sua função como meio de troca e reserva de valor. Mas não é só isso, ao longo dos principais processos de contração de crédito da história (1825, 1873, 1930), o ouro constituiu-se sempre em liquidez absoluta e proteção inabalável de patrimônio enquanto que a quase totalidade de ativos existentes perde valor quando re-convertidos em ouro ao final do período de contração aguda. Ao longo de mais de 300 anos de história de distintas contrações de crédito, o poder de compra do ouro sempre aumentou por pelo menos 2-3 anos após o início da contração. Aos que tiverem acesso (e sangue frio), o setor de mineração de ouro apresenta ainda uma interessante alavancagem sobre o preço base do metal uma vez que os custos de produção são deflacionados ao longo do processo de desalavancagem do sistema.

DÓLAR (Perspectiva Positiva ao longo de 2009, mas com algum risco)
Tanto o USD quanto o Iene Japonês constituem-se nas moedas bases do famoso “carry trade”. Em outras palavras, a pilha de dívidas e conseqüente alavancagem de ativos globais foi construída com base na venda destas moedas em troca da especulação do momento, seja ela petróleo, imóveis em Xangai ou São Paulo. Nada mais natural do que o reverso gerar uma “corrida” ao Dólar e Iene que agora são procurados incessantemente para quitar as dívidas que perderam lastro em função da perda do valor dos ativos dados como garantia. O processo de valorização do USD e do Iene pode ser classificado portanto como técnico, pois é independente dos fundamentos das economias dos EUA e Japão (balanças comercias, fluxos, etc.). Por esta mesma razão, e por serem moedas sob o total controle de Banco Centrais, tanto o USD quanto o Iene padecem do mesmo risco: podem sofrer uma desvalorização súbita, fruto da ação intervencionista dos devidos BCs que visam “aliviar” o peso das dívidas presentes no sistema. Ao final dos próximos 3 anos (2011), acredito que a desvalorização do USD seja 100% provável. No entanto, ao longo dos próximos 12 meses, creio que a probabilidade de uma desvalorização esteja ainda ao redor de 20%. Assim sendo, devemos esperar um rendimento do USD de no mínimo 10% superior ao Ouro para justificar a posição em USD. Mantemos nossas metas para o USD versus o Real de no mínimo 3,00 até o final de 2009 (ou muito antes!).

RENDA FIXA EM REAIS (Perspectiva levemente negativa para 2009)
Sustentar uma argumentação negativa a respeito da alocação de capital em renda fixa durante um período turbulento como este pode não ser muito popular. No entanto, do ponto de vista da manutenção e aumento do poder de compra, os resultados ao final de 2009 podem não ser muito animadores para os investidores em renda fixa em reais. O ponto em questão é que durante um processo de fuga de capitais ao qual o Brasil vai passar mais violentamente durante 2009, a remuneração via juro sobre capital não deve acompanhar a taxa de desvalorização do Real diante de outros ativos como o ouro e o USD. Eventualmente, a estrutura de juros em Reais “alcança” em parte o percentual da defasagem cambial, mas quando isso ocorrer significa muito mais uma estabilização do processo de fuga de capital e possível reversão do cenário. Assim sendo, se a opção for por alocação em renda fixa que seja esta na modalidade pós-fixada onde a defasagem deve ser menor ao longo dos 12 meses de 2009.

IMÓVEIS (Perspectiva negativa para 2009)
Comprar um imóvel hoje para realizar algum ganho de capital ao longo de 2009 pode não ser um bom investimento. Nossa valoração deste setor leva em consideração principalmente a rentabilidade da locação do imóvel em relação ao valor investido. Historicamente, este rendimento tem sido ao redor de 12% ao ano nas grandes cidades brasileiras. No entanto, ao longo dos últimos 12 meses este rendimento tem estado ao redor de 8% o que sugere duas hipóteses: ou os imóveis estão supervalorizados em cerca de 30%; ou os aluguéis estão subavaliados em cerca de 50%. Em nossa opinião, a primeira hipótese é a mais provável, principalmente em função da expansão de crédito que vinha ocorrendo no setor (aumento da demanda por casa própria). Da mesma forma, a massa salarial que em parte sustenta a demanda por aluguéis deverá sofrer um forte revés desde já. Corroborando com o problema, um rápido passeio pelos balanços das diversas construtoras listadas na Bovespa indica um eminente problema que pode deprimir ainda mais os preços dos imóveis novos no curto prazo: aperto de caixa. Em miúdos, muitas construtoras terão que “desovar” seus estoques de imóveis novos para conseguir terminar as obras em andamento e para não correrem o risco de quebrar no curto prazo. Enfim, nossa opinião para o setor (inclusive o comercial) é de baixa ao longo de 2009.

BOVESPA (Perspectiva muito negativa para 2009)
Processos de contração de crédito mundial são eventos épicos do ponto de vista econômico (1720, 1825, 1873, 1929), verdadeiros divisores de água que mudam a forma com a qual os homens se relacionam entre seus pares e seus governos. Mercados acionários por sua vez, além de serem considerados “máquinas do futuro” ao descontarem antecipadamente condições econômicas que ainda não são realidade, também funcionam como um “barômetro” das emoções e expectativas humanas (mais sobre isso nos próximos artigos). Em condições extremas e tão singulares como a atual, conceitos clássicos de valoração de ativos como o desconto de fluxo de caixa futuro, P/L, valor patrimonial, NPV, etc. perdem a relevância uma vez que a situação de venda forçada se instala permanentemente e independentemente dos fundamentos da companhia. Como exemplo, em junho de 1932, no ponto mínimo da última crise de contração de crédito, cerca de 40% de todas as companhias listadas na bolsa de Nova Iorque estava sendo ofertada abaixo do seu valor de capital de giro líquido. Em outras palavras, podiam ser adquiridas por uma fração do seu valor em caixa. Assim sendo, mantemos nossas metas de Bovespa a 21mil pontos até o final de 2009.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Bovespa: a Bombadinha Fatal.

Autor: Luis Cardiga (26/11/08)

Esta é uma abordagem de curto prazo, talvez um alerta sobre as falsas esperanças que uma reação positiva nos índices de ações pode suscitar nos investidores mais afoitos. As próximas semanas e/ou poucos meses podem surpreender muitos investidores ao manter a maioria dos índices de ações e commodities positivos durante a maior parte do tempo. No entanto, é importante chamar a atenção para algumas comparações com “crashes” do passado recente.

Primeiramente, nenhum movimento de mercado, por mais bem fundamentado que seja, segue em linha reta, sem que qualquer reação contrária ocorra no meio do caminho. Tomamos como elemento fundamental desta análise a proporção entre % de queda e o tempo decorrido. Abaixo, anexei um gráfico comparando o % de queda / ano dos últimos “crashes” no principal índice que é o Dow Jones Industrials nos EUA:
Infelizmente, não encontrei dados sobre nossa Bovespa para uma comparação fidedigna, mas o empirismo nos ajuda a concluir que, sobre qualquer ponto de vista, estamos bastante “acelerados” neste movimento de queda. A ilustração a seguir descreve o crash de 1930. Notem a “monstruosa” reação de quase 50% que ocorreu ainda no final de 1929.

De volta aos dias atuais, o gráfico abaixo descreve uma situação clássica de “Double-bottom” que vai enganar muita gente.
Temos a impressão de que muitos investidores serão “ludibriados” pela falsa esperança de que estamos no fundo do poço e tomarão posição mais ou menos nestes níveis. Acho que a felicidade destes crentes pode durar pouco. Certamente o próximo corte de juro por parte do FED e a perspectiva de mudanças por parte o novo governo de Obama manterão a chama da esperança acessa por algum tempo, mas a realidade da contração de crédito global não vai falhar em mostrar a verdadeira dimensão das quedas que ainda vem pela frente ao longo de 2009. Em poucas palavras, não acredito que estamos no fundo do poço aos níveis atuais.

Só para finalizar, convém lembrar que esta reação será acompanhada de uma recuperação dos preços do petróleo e do complexo commodities o que certamente vai influenciar a paridade do Real diante do USD no curto prazo também (talvez 1 USD / 2.10 Reais). No entanto, mantemos nossas metas de Selic, USD/Real e Bovespa inalterados para até o final de 2009 ou até que ocorra a maxi-desvalorização do Dólar.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ouro, Petróleo e o Brasil.

Autor: Luis Cardiga (20/11/08)

Hoje vou escrever sobre um índice largamente utilizado por investidores na avaliação da rentabilidade das empresas mineradoras de ouro e de que forma este mesmo índice pode ser utilizado para a interpretação do estágio atual de economias exportadoras de commodities como a do Brasil.

O “Gold-Oil Ratio” descreve a relação entre o valor de uma onça de ouro e um barril de petróleo. Em se tratando do setor de mineração de ouro, este índice mede de forma geral a rentabilidade da atividade de mineração de ouro uma vez que os custos globais seguem a grosso modo as cotações do petróleo (proxy para inflação universal) enquanto que as receitas seguem as cotações do ouro. Assim sendo, quanto mais elevadas forem as relações entre o valor do ouro em relação ao valor do petróleo, maiores serão as margens na atividade de mineração de ouro. Exemplificando, atualmente a onça de ouro é cotada a USD 750 e o barril de petróleo USD 52. Portanto temos uma relação atual equivalente a 14.42, ou seja, cada onça de ouro “compra” o equivalente a 14.42 (750/52=14.42) barris de petróleo.

Utilizamos este índice também para medir as relações de troca do Brasil com o exterior da seguinte forma: o valor do petróleo representaria de forma geral o valor médio das exportações de commodities brasileiras ao exterior enquanto que o valor do ouro representaria o poder de compra de nossas commodities em relação a todos os outros ativos, inclusive o USD. Em poucas palavras, o Brasil funcionaria como uma mina de ouro invertida: quanto maior o valor das commodities em relação ao ouro, maior é a prosperidade (lucro) gerada pelo sistema Brasil. Como já vimos em outros artigos, esta prosperidade pode ser medida em varias pontos tais como baixa inflação, juros nominais baixos, crescimento do PIB, extensão do crédito, baixo desemprego, Real valorizado, etc. Por outro lado, o inverso é igualmente verdadeiro, gerando conseqüências igualmente opostas a da prosperidade econômica.

Abaixo segue um gráfico recente desta relação ouro versus petróleo, e onde é possível identificar dois períodos bastante distintos em se tratando das relações de trocas na economia brasileira.
Como pode ser visualizado, o período que se estende até 1999 é caracterizado pelo baixo valor das commodities em relação ao ouro e coincide com algumas sérias crises econômicas da época, fuga de capitais, alto risco Brasil, etc. Por outro lado, o período que inicia em 2000 traz consigo uma transição rumo à estabilidade econômica. Esta estabilidade econômica recente tem sido sustentada pela alta relativa das commodities em relação ao ouro o que intensifica a entrada de capital externo no sistema brasileiro facilitando também a vida dos que vivem no sistema.

Olhando para o futuro, observem que a relação ouro versus petróleo está prestes a romper a resistência de 14.5 indicando que níveis muito mais altos podem ser alcançados num futuro não muito distante. Isto não é muito bom para o Brasil, pois indica também a finalização de um período onde as trocas eram favoráveis ao Brasil. As implicâncias econômicas no futuro próximo tendem também a serem semelhantes ao período do final da década de 90.

Recado final aos pessimistas de carteirinha: durante o último período de contração de crédito que seguiu ao crash de 1929, a média anual da relação ouro versus petróleo ficou em 36 e o pico máximo foi de 70 barris por onça de ouro. Pensem sobre as implicâncias destas relações extremas para a economia brasileira de agora em diante.

Por essa, e por outras razões mantemos nossas metas de:

SELIC: 20%
Real / USD: 3,00
Bovespa: 21 mil pontos

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Depreciar é Preciso.

Autor: Luis Cardiga (14/11/08)

Estimados leitores, na medida em que as semanas e meses progredirem, poderemos avaliar melhor os efeitos nefastos da contração de crédito e baixa dos preços das commodities na economia brasileira. Creio que esta seja uma tendência confirmada no que chamamos de “lado A” da crise (ver post da semana passada). Certamente não será uma trajetória linear, mas sim uma montanha russa com direito a falsas expectativas de melhoras no curtíssimo prazo, loopings e tudo mais. No entanto, enquanto o câncer econômico continuar sendo combatido apenas com band-aid e água benta, mantemos nossas metas como segue:

BOVESPA: 21 mil pontos
REAL / USD: 3,00
SELIC: 20%

Uma vez que já estamos posicionados na tendência ladeira a baixo (deflação em USD), devemos agora focar nossa atenção nos elementos que poderão radicalmente alterar a direção do movimento num futuro não muito distante. Conforme o comentado em artigo da semana passada, o “X da questão”, no meu entendimento, está no realinhamento da relação dívida / PIB via depreciação do USD (aniquilamento real das dívidas em USD). Estou anexando abaixo um gráfico que encontrei na web e que ajudará no melhor entendimento do tamanho do “pepino” que os EUA terão pela frente, bem como no potencial fantástico que este realinhamento forçado pode gerar para as economias exportadoras de commodities como o Brasil.






Observem que o nível de dívida sobre o PIB nos EUA estava ao redor de 150% na véspera da Crise de 1930 e que a contração do PIB durante os 2-3 anos seguintes conduziu esta relação para cerca de 260%. Em miúdos, o PIB encolheu, mas a dívida não. Como parte do processo, a solvência dos devedores piora bastante gerando uma “espiral” de quebradeira altamente deflacionária para o sistema. Ou seja, uma situação semelhante à que estamos começando a viver neste momento, mas com um diferencial: o nível de endividamento já se encontra a mais de 300% pra começo de conversa. Neste exemplo da década de 30, o realinhamento das contas só começa após a maxi-desvalorização do USD da época em 40%. Antecipando a maxi-desvalorização, ações em bolsa e commodities explodiram em múltiplos dos valores mais baixos cotados em junho de 1932. Este boom de preços durou cerca de 5 anos até 1937 e beneficiou commodities diversas.

Obviamente, crises de contração de crédito como as de 1873, 1930 e 2008 não são idênticas por diversos motivos, mas servem como parâmetro para a comparação/dimensionamento de seus efeitos sobre preços diversos pré e pós resolução da crise.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O Xadrez de Obama (e porque Deus é Brasileiro).

Autor: Luis Cardiga (07/11/08)

Obama venceu as eleições nos EUA e agora pode ser considerado o ser humano mais poderoso do mundo, pelo menos do ponto de vista bélico. A eleição de Obama sob o rótulo da mudança acalenta um sentimento de alívio não só ao povo americano, mas também ao resto do mundo de que a atual crise mundial que se instala será revertida sob a nova direção da casa capitalista. Pois bem, suspeito que este alento será muito curto uma vez que a economia americana (e mundial) está num estágio semelhante ao do final de um jogo de xadrez, ou em linguagem popular, num mato sem saída.

O problema das dívidas denominadas em Dólar.
Aos que aceitam a minha argumentação de que a valorização do USD nas últimas semanas é fruto de um movimento técnico ocasionado pela diminuição do bolo financeiro mundial (destruição de crédito, desalavancagem) e conseqüente corrida ao USD como posição neutra / fuga ao risco, vou adicionar outro elemento complicador a esta crise que é a rápida contração do Produto Interno Bruto (PIB) americano que deverá ocorrer muito em breve. A atual crise que estamos vivendo vai se aprofundar bastante no momento em que a capacidade de cobertura (leia-se pagamento) das dívidas atuais for comprometida ainda mais com a diminuição da atividade econômica nos EUA. Em outras palavras, os eventuais lucros que poderiam cobrir os juros e principal das dívidas não estão mais disponíveis no sistema, gerando uma nova rodada de quebradeiras que acaba perpetuando o ciclo deflacionário. Assim sendo, o índice de dívida sobre o PIB que hoje está ao redor de 300% pode rapidamente acelerar uma vez que a base equação encolhe (Dívida / PIB). Sob este aspecto e corroborando com o caos, a valorização do USD diante de tudo e de todos torna as dívidas denominadas em USD simplesmente impagáveis.

O cheque-mate ao Dólar.
A conjuntura econômica atual, portanto, assemelha-se ao final de um jogo de xadrez, de um lado os detentores de ativos denominados em USD do outro os devedores com dívidas denominadas em USD. O leitor astuto vai entender que os devedores em USD dominam a partida, e que a única forma plausível para finalizar esta disputa é o cheque-mate ao USD, ou seja, a maxi-desvalorização do USD. Após o cheque-mate, os devedores têm suas dívidas “canceladas” via depreciação cambial.

Os precedentes históricos não são poucos.
A desvalorização da moeda corrente sempre foi o artifício clássico para a aniquilação de dívidas impagáveis. Ou seja, nominalmente a dívida continua a mesma, mas seu valor real relativo a possibilidade de geração de recursos para pagá-las diminui. As dívidas tornam-se proporcionalmente menores após a desvalorização do USD. Os famosos exemplos da Republica de Weimar na Alemanha de 1923 e dos EUA em 1935 vem em mente.

A anatomia do processo.
Infelizmente, esta crise parece que vai ter lado A e lado B assim como os antigos discos de vinil. O lado A é o que estamos vivendo neste momento. Ele é caracterizado pela deflação generalizada de ativos diante do USD. Acertar em que momento vai ocorrer a desvalorização do USD é difícil, pois pode ocorrer amanhã (não creio) como pode durar ainda 12-24 meses (mais provável). Enquanto o lado A estiver tocando já sabemos qual o timbre na economia brasileira: SELIC subindo, Real desvalorizando, Bovespa caindo, fuga de capital, commodities em baixa, etc. Convém lembrar também que a desvalorização aguda do USD vai gerar conseqüências geopolíticas importantíssimas, muitas conseqüências mesmo! Mr. Obama e o congresso dos EUA só decidirão a favor desta resolução radical depois de prolongado sofrimento da população que, somente então, apoiaria uma “maracutaia” de tamanha grandeza. Na minha opinião, o nível de sofrimento ainda não está elevado o suficiente: desemprego ainda baixo e PIB encolhendo muito pouco ainda. Sob este aspecto, mantemos nosso "target" até o final do lado A é de Bovespa a 21 mil pontos ou menos; Dólar a R$3.00 ou mais; Selic 20%. Investidores: posicionem-se.

O lado B propriamente dito vai começar quando os primeiros rumores da desvalorização do Dólar vazarem aos amigos do Rei. Uma reação violenta nos preços das commodities e ações de empresas produtoras de commodities vai iniciar antes mesmo da divulgação de medidas que visem a desvalorização do USD. Acreditamos numa reação inicial nos preços 6 meses antes das medidas propriamente ditas. A julgar pelo nível de endividamento atual no sistema, uma desvalorização de cerca de 60-70% seria necessária para colocar em linha a relação da dívida. Uma desvalorização desta magnitude na moeda de reserva internacional vai gerar uma explosão inflacionária global, commodities diversas terão que ser ajustadas para cima o que vai gerar um novo boom nas economias exportadoras de commodities, principalmente na brasileira.

Por essa razão é que eu (também) acredito que Deus é Brasileiro!
Primeiro veio a pujança econômica de 2002 para cá: festas, IPOs, aumento de salário, especulação, crédito farto, etc. No entanto, Deus, um ser equilibrado e justo, achou que os excessos brasileiros já estavam passando da conta e que já tinha gente por aqui querendo tomar o seu lugar. Pois bem, em hora certa, resolveu punir os pecadores, mandando-lhes um corretivo para mostrar quem é que manda mesmo. E, quando tudo parecia perdido, eis que Deus, já sentindo pena de seu povo, devolve mais uma vez a chave dos céus aos brasileiros com uma nova onda de alta das commodities.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Importância do Ouro como Investimento.



Autor: Luis Cardiga (31/10/08)

O ouro como moeda de troca e reserva de valor faz parte das finanças humanas desde a época dos faraós. Ao contrario das moedas da atualidade, o ouro caracteriza-se por não ser replicável ao infinito e por não depender de qualquer governo para a sua emissão. De fato, ao longo dos últimos 300 anos a quantidade total anual de ouro produzida no mundo não ultrapassou 2% do total já existente o que garante a alta estabilidade do ponto de vista quantitativo em relação a outras moedas e ativos globais (valor intrínseco estável).

O ouro na diversificação de ativos e diluição do risco cambial da moeda nacional.
Tipicamente um investidor brasileiro tem os seus ativos alocados nos seguintes grupos de ativos: renda fixa em moeda nacional (poupança, CDBs, recebíveis, etc.), ações/participações em empresas nacionais e bens imóveis (casa própria, terrenos, terras, etc.). Muitas vezes o investidor que tem seu patrimônio pulverizado nestes três grandes grupos de ativos acredita estar bastante diversificado em seus investimentos. Embora exista uma correlação negativa entre o rendimento da renda fixa e a apreciação das ações e/ou bens imóveis a equação da diversificação não esta completa uma vez que todos estes ativos tem um risco comum pois, seus rendimentos têm como base a mesma moeda, o Real. Por esta razão, as variações cambiais da moeda Real afetam em toda a sua plenitude o poder de compra (leia-se poder de investimento) do investidor que acredita estar diversificado, mas não está.

O risco da correlação positiva do Real com o preço das commodities.
Moedas como o Real, o Dólar Canadense, o Rublo Russo e o Dólar Australiano são moedas que tem de forma geral uma correlação positiva com os preços das commodities internacionais como o petróleo, grãos, metais básicos, etc. Conforme o comentado em outra oportunidade, estamos possivelmente no início de um período de correção no preço das commodities internacionais em função da contração de crédito global. Este tipo de conjuntura é amplamente propício a desvalorização das moedas dos países exportadores de commodities. Sob este aspecto, o ouro funcionaria como um “estabilizador” do valor total patrimonial uma vez que sofre os efeitos da baixa das commodities em uma proporção muito menor. A saber, durante os grandes processos de contração de crédito na história do capitalismo moderno, o ouro (leia-se liquidez por excelência) sempre valorizou se em média por 2-3 anos após o estouro inicial da bolha especulativa. É importante lembrar que esta valorização sempre foi uma valorização relativa a outros ativos como, por exemplo, em relação às commodities, ações ou bens imóveis. Ao final do ciclo de contração, os estoques de ouro mantiveram o seu poder de compra, permitindo aos seus investidores uma nova aquisição de ativos em volume maior do que ao anterior

Diminuição dos riscos para quem tem rendimentos em Reais.
Este é um conceito difícil de ser aceito pela maioria das pessoas, mas que parece ter respaldo do ponto de vista lógico na diluição do risco total agregado dos rendimentos do indivíduo/empresa e seu patrimônio. A essência deste conceito é a de que tanto o salário quanto o patrimônio do indivíduo (seja em renda fixa, ações, casas, etc.) estão denominados em Reais, estando também sujeitos ao mesmo risco de uma variação cambial desfavorável do Real. Em outras palavras, se não bastasse a exposição do patrimônio às nuances da paridade cambial, também ficam expostos os ganhos do indivíduo que perderiam poder de compra diante de uma desvalorização do Real. Reservas em ouro ou outro ativo que não estejam correlacionados à moeda em que esta denominada a renda do indivíduo/empresa ajudariam na estabilidade do poder de compra do agregado salário/renda + patrimônio.

Histórico da apreciação do ouro em Reais desde 1999.
O período compreendido entre 1999 até o presente momento em 2008 é muito interessante para a nossa análise, pois compreende exatamente o intervalo de anos em que o petróleo (utilizamos o petróleo como proxy para as commodities como um todo) valorizou-se nada menos que 860% em USD conduzindo consigo o “boom” das commodities. Tal apreciação do petróleo trouxe também grande bonança econômica e apreciação das moedas nacionais em diversos países exportadores de commodities, entre eles o Brasil. Pois bem, este foi também um período em que os rendimentos de ativos denominados em Reais foram praticamente imbatíveis quando comparados a outros investimentos mundo a fora. Não distante de toda esta bonança, e mesmo enfrentando um cenário adverso para a valorização em moeda nacional, o ouro valorizou-se em média 15% ao ano em Reais durante estes nove anos (total aproximado de 400% no período) sendo este um bom parâmetro para aqueles que acreditam que a bonança das commodities vai arrefecer ainda mais durante os próximos 12-24 meses.

Um lembrete aos marinheiros incautos!
O mercado de ouro é diminuto quando comparado ao mar dos outros ativos no mundo. Por esta razão, suas cotações são bastante voláteis quando observadas durante um curto espaço de tempo. Aos que planejam alocar parte de seu portfólio em ouro, a recomendação é a de que mantenham um horizonte de pelo menos 24 meses antes de uma avaliação sólida dos retornos. Conforme o comentado anteriormente, o ouro deve ser encarado primordialmente como uma proteção do poder de compra futuro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Para onde vão os Juros no Brasil?



Autor: Luis Cardiga (23/10/08)

Não querendo estragar a festa de muita gente, mas já estragando, acreditamos que a taxa básica de juros no Brasil deva subir expressivamente durante o continuado processo de contração de crédito global que estamos vivendo. Acreditamos que certos elementos suportam este aumento na taxa básica como segue:

Correção nos preços das commodities básicas nos mercados globais.
O impacto da queda dos preços das commodities globais na balança comercial brasileira gera efeitos colaterais que encarecem o custo do dinheiro no Brasil. Partindo de uma posição relativa ao passado recente (2007), a redução dos superávits comerciais reduz a entrada de recursos financeiros no sistema local. Isto traduz em menor abundância de capital para financiamentos diversos e, por conseguinte, um aumento do custo de financiamento público ou privado em Reais.
A diminuição continuada dos superávits comerciais também influi negativamente no nível de cobertura de risco exigida pelos investidores estrangeiros para empréstimos em moeda estrangeira ao setor publico/privado brasileiro. Desta forma, o aumento do custo de financiamento externo “contamina” o custo de financiamento interno uma vez que as necessidades de financiamento devem ser focadas agora para o mercado doméstico.

A contração de crédito global aumenta o spread de risco.
Na verdade, a reversão de um processo de expansão de crédito é acompanhada pela diminuição da atividade econômica e conseqüente piora da capacidade dos indivíduos, empresas e governos em honrar suas dívidas. Assim sendo, a contração de novas dívidas em moeda estrangeira fica mais cara tanto para o setor público como para o setor privado obrigando-os a competir por limitado capital no mercado interno.

Maior dificuldade do custeio das atividades do Governo brasileiro.
A futura redução da taxa de crescimento do PIB brasileiro afetará a capacidade da máquina pública em recolher impostos tanto do tipo transacional como de renda. Por outro lado, a expansão de gastos de cunho social entre outros, que estava sendo implementada ao longo dos últimos anos poderá no máximo ser contida nos níveis atuais. Sob este aspecto, temos por parte do governo uma demanda relativamente maior sobre os recursos disponíveis na economia, aumentando assim o custo do dinheiro. Em poucas palavras, o nível de solvência do governo diminui obrigando-o a pagar mais pelo financiamento de suas atividades.

O “Long Bond” americano e o que esta por vir.
Devemos entender que toda a estrutura de crédito global esta interligada, que a curva de juros do tesouro americano (emissor da moeda de reserva) funciona como base para a formação dos custos financeiros no mundo e que os spreads de risco diminuem na medida em que a expansão de crédito chega a sua maturidade.
Ao final do ciclo, empresas e governos de solvência duvidosa têm custos de financiamento levemente superiores aos custos de captação do governo americano (risco zero pois emite). Como já vimos, custos para captação de dólares no exterior influenciam também os custos para captação em moeda nacional.
No entanto, os spreads de juro disparam uma vez que a contração inicia. Na verdade é um processo que começa de fora para dentro pois os primeiros a terem restrição de crédito são os mais distantes do centro emissor. Na medida em que a contração evolui o centro emissor também começa a sofrer da restrição de capital disponível no sistema, primeiramente nos títulos longos (30 anos) descendo até os títulos mais curtos até chegar por fim ao valor da moeda, o USD propriamente dito.
Onde quero chegar: até o presente momento os títulos do centro emissor ainda não foram atingidos e a captação do governo americano para 30 anos tem estado ao redor de 4.10% desde o início da contração. O que poderá ocorrer muito em breve é o repúdio dos investidores a estes títulos também, fazendo com que o custo de captação de longo prazo aumente e seja amplificado via spread de risco para todos os outros títulos de dívida de longo prazo. Assim sendo, não só acredito que os juros no Brasil deverão seguir uma trajetória contínua de alta, mas que também deverão disparar em algum momento nos próximos meses quando o “Long Bond” for atingido. Quem viver vera!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

DÓLAR VS. REAL

Dólar vs. Real

Autor: Luis Cardiga (13/10/08)

Dizem no Brasil que de economia e futebol todo mundo entende um pouco. Portanto, gostaria de contribuir com a minha opinião sobre a atual paridade do Real diante do Dólar Americano. Acredito que o Real acaba de embarcar numa sólida tendência de baixa (desvalorização diante do USD) e que deverá perdurar por um bom tempo. Creio que três fatores são fundamentais para a manutenção desta tendência.

Ciclo de contração de crédito mundial e seu efeito sobre o Real.
A primeira interpretação é a de que estamos na primeira fase de um processo de contração de crédito mundial. No passado, contrações semelhantes levaram a uma valorização acentuada das moedas de reserva da época. Esta apreciação durou cerca de 2-3 anos. Exemplos de contrações semelhantes seriam 1825, 1873 e 1930. Tecnicamente falando, a “destruição” de crédito diminui o bolo financeiro (crédito + dinheiro) que “irriga” a totalidade dos ativos disponíveis no mundo. Desta forma, temos uma mesma quantidade de ativos (ações em bolsa, títulos de dívida publica ou corporativa, commodities, moedas estrangeiras, etc.) que, a partir da contração, devem corresponder a um bolo financeiro total menor que o anterior. Sobre este aspecto, temos o USD valorizando-se diante de tudo e todos. Em minha opinião este efeito (demanda de USD para quitação de débitos), isoladamente, seria responsável por cerca de 2/5 da atual desvalorização do Real diante do Dólar Americano. Enquanto perdurar o processo de liquidação “aguda” dos créditos, teremos presente este fator na formação da paridade USD vs. Real.

Ciclo das commodities e seu efeito sobre o Real diante do Dólar.
A interpretação é a de que estamos em meio a um período de correção aguda dos preços das commodities, parte de um ciclo positivo para os preços dos produtos básicos que historicamente dura entre 14 a 24 anos. Esta correção nos preços das commodities já vem ocorrendo desde meados de 2007 e muito provavelmente continuará por mais um ou 2 anos. Generalizando-se, commodities em alta significam superávit comercial para o Brasil. Por sua vez, a geração de superávits aumenta a demanda por moeda nacional, o Real. Tal demanda ocorre não só pelo canal comercial, mas também pelo canal financeiro uma vez que a percepção de risco país diminui com os saldos positivos e atrai capital externo de longo e curto prazo (maior demanda por moeda nacional). O inverso também é verdadeiro e é o que até certo ponto estamos vivendo neste momento. É importante lembrar também que as “percepções” do que pode acontecer valem tanto quanto a realidade para os agentes envolvidos pois estes se antecipam ao movimento futuro. O valor em USD de itens importantes para o superávit comercial como o minério de ferro ainda não foram atingidos, mas certamente o serão em menor ou maior grau seja pela alta do USD em função da contração de crédito ou pela menor demanda mundial por commodities fruto da menor atividade econômica nos mercados destino. Penso que a influência atual e futura da baixa das commodities será expressiva (2/5) para a manutenção da tendência de desvalorização do Real vs. USD.

Ações do Banco Central e outros sobre o valor do Real diante do Dólar.
A natureza intervencionista do BC brasileiro ratifica a tendência já existente. Parece tolo, mas as operações do nosso Banco Central visando conter a desvalorização do Real diante do USD funcionam como uma chancela para os investidores internacionais se posicionarem do lado correto da gangorra, ou seja, comprados em USD e vendidos em Reais. Assim sendo, as ações atuais do Banco Central “atraem” e confirmam a desvalorização do Real diante do Dólar Americano no futuro próximo.