Autor: Luis Cardiga (23/10/08)
Não querendo estragar a festa de muita gente, mas já estragando, acreditamos que a taxa básica de juros no Brasil deva subir expressivamente durante o continuado processo de contração de crédito global que estamos vivendo. Acreditamos que certos elementos suportam este aumento na taxa básica como segue:
Correção nos preços das commodities básicas nos mercados globais.
O impacto da queda dos preços das commodities globais na balança comercial brasileira gera efeitos colaterais que encarecem o custo do dinheiro no Brasil. Partindo de uma posição relativa ao passado recente (2007), a redução dos superávits comerciais reduz a entrada de recursos financeiros no sistema local. Isto traduz em menor abundância de capital para financiamentos diversos e, por conseguinte, um aumento do custo de financiamento público ou privado em Reais.
A diminuição continuada dos superávits comerciais também influi negativamente no nível de cobertura de risco exigida pelos investidores estrangeiros para empréstimos em moeda estrangeira ao setor publico/privado brasileiro. Desta forma, o aumento do custo de financiamento externo “contamina” o custo de financiamento interno uma vez que as necessidades de financiamento devem ser focadas agora para o mercado doméstico.
A contração de crédito global aumenta o spread de risco.
Na verdade, a reversão de um processo de expansão de crédito é acompanhada pela diminuição da atividade econômica e conseqüente piora da capacidade dos indivíduos, empresas e governos em honrar suas dívidas. Assim sendo, a contração de novas dívidas em moeda estrangeira fica mais cara tanto para o setor público como para o setor privado obrigando-os a competir por limitado capital no mercado interno.
Maior dificuldade do custeio das atividades do Governo brasileiro.
A futura redução da taxa de crescimento do PIB brasileiro afetará a capacidade da máquina pública em recolher impostos tanto do tipo transacional como de renda. Por outro lado, a expansão de gastos de cunho social entre outros, que estava sendo implementada ao longo dos últimos anos poderá no máximo ser contida nos níveis atuais. Sob este aspecto, temos por parte do governo uma demanda relativamente maior sobre os recursos disponíveis na economia, aumentando assim o custo do dinheiro. Em poucas palavras, o nível de solvência do governo diminui obrigando-o a pagar mais pelo financiamento de suas atividades.
O “Long Bond” americano e o que esta por vir.
Devemos entender que toda a estrutura de crédito global esta interligada, que a curva de juros do tesouro americano (emissor da moeda de reserva) funciona como base para a formação dos custos financeiros no mundo e que os spreads de risco diminuem na medida em que a expansão de crédito chega a sua maturidade.
Ao final do ciclo, empresas e governos de solvência duvidosa têm custos de financiamento levemente superiores aos custos de captação do governo americano (risco zero pois emite). Como já vimos, custos para captação de dólares no exterior influenciam também os custos para captação em moeda nacional.
No entanto, os spreads de juro disparam uma vez que a contração inicia. Na verdade é um processo que começa de fora para dentro pois os primeiros a terem restrição de crédito são os mais distantes do centro emissor. Na medida em que a contração evolui o centro emissor também começa a sofrer da restrição de capital disponível no sistema, primeiramente nos títulos longos (30 anos) descendo até os títulos mais curtos até chegar por fim ao valor da moeda, o USD propriamente dito.
Onde quero chegar: até o presente momento os títulos do centro emissor ainda não foram atingidos e a captação do governo americano para 30 anos tem estado ao redor de 4.10% desde o início da contração. O que poderá ocorrer muito em breve é o repúdio dos investidores a estes títulos também, fazendo com que o custo de captação de longo prazo aumente e seja amplificado via spread de risco para todos os outros títulos de dívida de longo prazo. Assim sendo, não só acredito que os juros no Brasil deverão seguir uma trajetória contínua de alta, mas que também deverão disparar em algum momento nos próximos meses quando o “Long Bond” for atingido. Quem viver vera!
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