
a) As idéias e conceitos propostos neste texto refletem minha conclusão pessoal sobre investimentos, finanças e estratégia, e, portanto, devem ser criteriosamente avaliados antes de qualquer tomada de decisão que envolva a alocação de capital de terceiros.
b) Os investidores que tiverem acesso, assim chamados neste artigo, são investidores qualificados que atendem as normativas do artigo 110-B da instrução CVM 409/04.
O atual contexto depressivo da economia mundial (leia-se contração de crédito) se faz extremamente favorável à atividade de mineração de ouro. A razão é muito simples: durante a fase expansionista dos grandes booms econômicos regados a crédito farto, os valores reais do ouro e do USD (moeda de reserva) caem diante de tudo e todos; durante o período de contração do crédito, a falta de liquidez no sistema catapulta o ouro a novos patamares uma vez que este se encontra na base da pirâmide de liquidez.
Em última análise, o valor real do ouro, e conseqüentemente a margem operacional das mineradoras de ouro tem que subir expressivamente para que as mineradoras aumentem a produção desta moeda ajudando assim a aumentar a liquidez disponível no sistema (valor por unidade sobe + volume sobe). Esta foi a única forma que a “mãe natureza” encontrou para re-calibrar o sistema econômico durante o vácuo deixado pela destruição de crédito após as grandes manias do passado.
Invariavelmente ao longo da história, o valor real do ouro (diante de tudo e todos) sempre subiu durante os períodos de contração de crédito por cerca de 2-3 anos após o ápice do boom conforme os gráficos abaixo atestam:

O gráfico apresentado na semana passada refere-se a mineradora de ouro que hoje pertence a Barrick Gold (NASDAQ:ABX). Mesmo obrigada a vendar toda a sua produção de ouro ao valor fixo de USD 35 / onça durante os anos de depressão aguda (1930, 1931, 1932), esta mineradora conseguiu aumentar seus lucros em cerca de 120% durante o período devido à queda nos custos gerais de produção. Outras mineradoras de ouro da época (o setor como um todo) obtiveram expansões das respectivas margens operacionais semelhantes ou superiores a este exemplo.
Acreditamos que a principal distinção entre a atual contração de crédito e outras do passado, concentra-se, principalmente no maior grau de alavancagem vigente no sistema atual (ver “Depreciar é preciso” de 14/11/08). A magnitude da atual alavancagem (centenas de trilhões de dólares) proporciona assim um potencial formidável para a deflação dos custos operacionais nas minas de ouro. Da mesma forma, vivemos uma situação onde o valor do ouro não é fixo como em 1930 e, portanto, existe ainda o potencial não realizado de valorização nominal gradual do ouro em USD.
Desde a segunda metade de 2007 os preços relativos dos metais básicos (zinco, chumbo, níquel, etc.) estão caindo em relação ao ouro. Desde meados de 2008 o “Gold-Oil-Ratio” tem sido extremamente favorável ao ouro (atualmente em 23; ver “Ouro, Petróleo e o Brasil” 20/11/08, nosso target é 70). Para finalizar, o bom observador vai notar também que durante os últimos pregões a correlação negativa entre o USDX e o ouro (que já dura quase 8 anos) parece estar chegando ao fim. Este possível divórcio entre o USDX e o ouro vai chamar a atenção de toda uma legião de analistas e investidores formatados a interpretar o mundo sobre a ótica das cotações em USD. O recente apoio dos garotos propaganda tradicionais (Goldman, JP, Merrill, Citi – obviamente após a devida fase de acumulação na baixa) parece já refletir esta nova percepção por parte da ortodoxia de plantão.
Assim sendo, temos uma conjuntura muito favorável á expansão das margens no setor: custos relacionados à operação da minas como explosivos, combustíveis, energia, mão-de-obra e equipamentos caem; custos relacionados a expansão de capacidade (capex) como o aço e subcontratação também caem. Custos gerais de produção em países tradicionais exportadores de commodities como Brasil e Austrália caem de forma radical, pois refletem ainda a desvalorização das moedas locais (e custos de produção) nestes países em relação ao ouro. Corroborando com a bonança, o setor de mineração de ouro passa a atrair durante os anos de depressão os melhores talentos da indústria a um custo baixo uma vez que muitos bons profissionais perdem o emprego na mineração de ferro, cobre, chumbo, zinco, urânio, etc.
Infelizmente, não temos ainda nenhuma mineradora de ouro listada no Bovespa (hello?). Aos investidores que tiverem acesso existe uma infinidade de mineradoras de ouro tanto em fase exploratória como em produção listadas nas bolsas de Toronto, Sidney e NY. Um veículo interessante para alocação de recursos no setor é o Market Vectors Gold Miners ETF (AMEX: GDX) que se constitui num índice de várias mineradoras sem hedge. Os especialistas de plantão encontram ainda uma farta escolha entre as diversas mineradoras ou companhias de prospecção de ouro listadas nas bolsas acima mencionadas. Existem empresas micro exploradoras, em fase de pré-produção, em produção ou com várias minas pelo mundo, na África, na América Latina, no Ártico, no Brasil, na Austrália, no Canadá, com hedge ou não, com minas de alto ou baixo teor, com minas a céu aberto ou subterrâneas, faturamento com base em royalties, etc. Ao longo dos próximos blogs analisaremos estas interessantes opções e combinações individuais de empresas listadas em bolsa, bem como oportunidades de Private Equity em minas e prospecção de ouro no Brasil.
Enfim, os veículos para “tirar uma lasca” deste processo de deflação geral de preços em relação ao ouro são variados, mas fica aqui um lembrete, a volatilidade do setor é surpreendente, para o bem ou para o mal! A dispersão de recursos em diversos veículos que estejam em estágios diferentes dentro do mesmo setor é prudente e permite a rotação intra-setorial na medida em que os projetos individuais amadurecem. A dispersão geográfica também é prudente uma vez que o risco político local aumenta na medida em que o boom vai chegando a sua maturidade.
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