sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Agricultura no Brasil: Lucros durante a Depressão.

Autor: Luis Cardiga (23/01/09)


O atual período em que vivemos será visto em retrospecto como o início da Grande Depressão do século XXI. Os dados econômicos atuais, no Brasil ou no exterior, deixam poucas dúvidas sobre o que esta por vir durante 2009 e 2010.

O estudo dos períodos durante as grandes contrações de crédito no passado (1825, 1873, 1930), nos leva a concluir que pouquíssimos setores econômicos conseguem manter ou elevar suas margens operacionais durante estes longos períodos de depressão econômica. Como já mencionado em outras ocasiões, o setor de mineração de ouro é o setor que obviamente está sendo muito beneficiado pelo rápido processo de contração econômica mundial. No entanto, outro setor que começa a chamar nossa atenção e que pode surpreender com uma expansão das margens operacionais é o setor agrícola, em especial o setor agrícola no Brasil. Nosso principal argumento para a expansão das margens operacionais nas fazendas brasileiras em plena depressão econômica tem como base a nova relação de preços entre o petróleo e o agregado das commodities agrícolas (exceto carnes). No gráfico abaixo retratamos o “Agro/Oil Ratio” que não deixa dúvidas sobre a nova realidade de margens que se materializa no campo:

Como pode ser visto, temos uma formação triangular clássica em formação desde 1999 e que foi recentemente rompida em favor dos grãos o que pode ser interpretado como uma nova tendência em formação.


Resumidamente, temos uma situação em que os custos dos insumos (fertilizantes, defensivos, combustíveis, etc.) representados aqui pelos preços do petróleo, diminuem numa proporção maior que a diminuição dos preços de venda das commodities agrícolas produzidas. Corroborando com esta situação, temos também a perspectiva de “transferência de margens” do segmento logístico (fretes internos + fretes internacionais) para dentro da porteira da fazenda uma vez que a proporção do frete no total CFR diminui, adicionando valor aos totais FAS na porteira da fazenda. Se não bastasse, a esperada desvalorização do Real (que também resulta da relativa baixa dos valores das commodities e conseqüente desequilíbrio na balança comercial) vai ajudar e muito na diminuição dos custos reais de mão-de-obra e depreciações em geral. Notem também que um processo de desvalorização rápida e aguda do Real diante do USD também gera um efeito positivo (ainda que momentâneo) nos fluxos de caixa dos fazendeiros uma vez que os insumos são adquiridos com uma moeda relativamente forte no início do processo enquanto que o produto final é faturado ao final do processo ( +/- 6 meses depois) com uma moeda relativamente depreciada.


Dentro deste contexto, o valor das terras agrícolas no Brasil deve manter-se relativamente firme ao longo dos próximos 2 anos. Regiões produtoras mais distantes dos portos e culturas com maior grau de utilização de insumos como o Milho também serão relativamente beneficiadas.
Aos que desejam tirar “uma lasca” desta possível nova tendência (e tiverem acesso), short oil e long agro é a indicação mais óbvia. Empresas agrícolas como a SLC (código SLCE3 Bovespa) também podem ser um bom veículo para a alocação de recursos. No entanto, as carteiras de hedge e endividamento deste tipo de empresa devem ser muito bem analisadas. O conveniente é que exista um travamento dos preços futuros dos grãos, mas não o travamento da moeda. Outro ponto muito importante é a conjuntura atual dos mercados como um todo. Embora empresas como a Cresud (Argentina - código CRESY Nasdaq, warrants 2015 código CRESW) e SLC estejam recomprando suas ações, este iniciativa nos parece ainda um pouco precipitada. É muito provável que o próximo crash ainda em 2009 atinja também estas empresas independentemente da expansão de margens/recompra de ações. A discrepância de Yields entre dívida e equities está enorme no mercado como um todo, o que sugere ainda uma drástica correção nos mercados acionários globais. Timing, paciência e uma posição neutra de espera em ouro ou USD podem turbinar a tomada de posição no setor agrícola.

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